

Indiscutivelmente, algumas empresas brasileiras assumiram posição de relevo no cenário externo na era da globalização. Gerdau, Vale, Marcopolo, Odebrecht, Embraer, WEG, Tigre, Camargo Corrêa, Brasken, Coteminas, JBS-Friboi, Marcopolo, Natura, Perdigão, Petrobras, Sadia e Votorantin estão entre elas. Aliás, em plena ameaça de crise internacional, em fevereiro de 2008, a Vale acordou com algumas das maiores siderúrgicas do mundo, incluindo japonesas, coreanas e Thyssen-Krupp, reajustes entre 65% e 71% nos preços do minério de ferro ¿ o que significou a segunda maior elevação da história, em vigor desde abril.
O episódio serviu para reforçar a estratégia da empresa de aumento da participação no mercado de mineração (carvão e outros metais) por meio da captação de recursos externos superiores a US$ 50 bilhões, objetivando sustentar a oferta de US$ 90 bilhões para a aquisição da Xstrata, grande companhia anglo-suíça.
No fundo, o comportamento positivo das empresas explica o fato de, em 2007 e 2008, o Brasil ter conseguido subir seis degraus no ranking de competitividade de 55 nações, elaborado pelo International Institute for Management Development (IMD), conceituada escola de negócios sediada na Suíça, passando do 49º para o 43º lugar. Isso graças aos avanços observados nos quesitos ¿eficiência empresarial¿ ou produtividade e práticas gerenciais (do 40º para o 29º posto) e performance econômica (do 47º para 41º).
Na mesma linha, é perceptível o encurtamento da participação da indústria automobilística em mercados desenvolvidos, como o americano e europeu, e o avanço em áreas emergentes como a brasileira. Segundo previsões da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as montadoras devem investir US$ 5 bilhões no Brasil em 2008, o que deve provocar elevação da capacidade produtiva de 3,5 milhões para 4 milhões de unidades por ano.
Tais elementos vêm favorecendo a redução da vulnerabilidade externa do país, por meio da obtenção de superávits em transações correntes, durante quase seis anos, e da zeragem contábil da dívida externa, conquistada graças à política de acumulação de reservas internacionais. As reservas foram formadas como tentativa de neutralização da apreciação do real, produzida pelos crescentes saldos comerciais e pela entrada de capitais especulativos, estimulada pelas operações de arbitragem, caracterizadas pelo expressivo diferencial entre os juros domésticos vis a vis os internacionais. Aliás, a flagrante diminuição da exposição externa brasileira justifica a recente qualificação de grau de investimento, conferida por duas instituições de classificação.
No front interno, é oportuno frisar a ocorrência de um processo de recuperação econômica desde o último trimestre de 2005, em resposta a um grupo de elementos positivos constituído pela preservação do poder de compra da população, com a estabilização da inflação; pela redução dos juros e a ampliação da oferta e dos prazos do crediário, sobretudo com o alargamento da modalidade em consignação; pela elevação dos níveis de emprego e de salários reais (capitaneados pelo mínimo e pelos reajustes acima da inflação, obtidos pela maioria das categorias profissionais, por ocasião dos dissídios); e pela interferência da proliferação do programa Bolsa Família, particularmente no consumo de bens essenciais. A par disso, foi possível perceber a redução da desigualdade e da pobreza, ainda que em proporções moderadas.
Tangenciando esses ganhos emergem a preparação e implantação de alguns aprimoramentos institucionais feitos ao longo dos últimos dois decênios. Frise-se a eliminação da superposição de funções de autoridade monetária entre o Banco do Brasil e o BC, especificamente com o fim da conta movimento, que tornava a política monetária refém dos descalabros fiscais; a unificação dos orçamentos monetário e fiscal; a flexibilização dos monopólios; a regulamentação das concessões dos serviços públicos; e a aplicação das leis de responsabilidade fiscal e de falências.
Gilmar Mendes Lourenço é economista, coordenador do Curso de Ciências Econômicas e editor da Revista Vitrine da Conjuntura da Unifae - Centro Universitário Franciscano do Paraná ¿ FAE Business School.