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Bolsa de oportunidades


Veiculo: Administradores
Secao: Notícias
Localidade: PB
Data: Agosto 06, 2008
Hora: 21:56


Bolsa de oportunidades

O crescimento do mercado acionário brasileiro, que surfou em altas estratosféricas nos últimos anos, não é – como chegaram a pensar os mais céticos – uma bolha fadada a explodir a cada crise de liquidez global. Os espasmos de incerteza e intranqüilidade nas principais bolsas do mundo, causados por fatores como as cólicas da economia norte-americana, a inflação dos alimentos no mundo e a disparada dos preços do petróleo, têm impacto na Bovespa, naturalmente, mas não alteram o cenário virtuoso da principal bolsa brasileira, ainda mais fortalecida por meio do processo de unificação com a Bolsa de Mercadorias & Futuros. O número de novas companhias abrindo capital e a presença dos investidores internacionais – agora reforçada pela obtenção do grau de investimento concedido pelas agências de risco Standard&Poor’s e Fitch – sinalizam que o ciclo de expansão pode estar apenas começando. No final de maio, a Bovespa registrava que as pessoas físicas já representavam 27,9% do volume negociado no pregão. O valor de mercado das companhias listadas na Bovespa já se equipara ao valor do PIB brasileiro, fenômeno próprio de nações com um mercado de capitais amadurecido.
Os novos tempos do mercado acionário brasileiro e o boom histórico de IPOs (a oferta inicial de ações que marca a abertura de capital das empresas) se refletiram, também, e de forma decisiva, no mercado de trabalho de profissionais ligados à bolsa. Especialistas de diversas áreas têm visto seu passe se valorizar de maneira explosiva. São analistas de investimentos, de controles internos e de compliance, contadores e auditores, experts em governança, consultores externos, advogados societários e especialistas em Relações com Investidores (RI). O ímpeto dos brasileiros por investir em ações também escancara oportunidades em outras áreas, como a de consultorias financeiras e de direito societário, gestores de fundos, cursos de capacitação e, também, do mercado editorial focado em finanças pessoais e investimentos. “Sem dúvida, os últimos oito anos podem ser considerados históricos para o mercado de capitais brasileiro – e isso se reflete na demanda por profissionais e serviços especializados”, afirma Arleu Anhalt, diretor-presidente da Firb, empresa especializada em consultoria de Relações com Investidores (RI). “Neste primeiro trimestre de 2008, tivemos um aumento de 88%, em relação a 2007, nos pedidos de profissionais para atuar em áreas relacionadas ao mercado de capitais”, complementa Gino Oyamada, sócio da Fesa Global Recruiters.
Tempos inusitados
A procura por serviços e profissionais especializados em mercado de capitais ganhou novo impulso, também, com a criação, em 2001, do Novo Mercado da Bovespa – compromisso voluntário assumido por empresas dispostas a adotar boas práticas de governança corporativa, em um padrão de transparência superior ao que a lei exige. Até 2005, apenas 19 empresas estavam listadas no Novo Mercado (NM), mas a partir de 2006 praticamente todos os novos IPOs foram feitos já com as empresas enquadradas nesse nível de classificação na bolsa. No início de junho, chegou a 100 o número de companhias classificadas no Novo Mercado. “Isso aumentou muito a procura por profissionais de RI, das áreas de auditoria e de contabilidade e, também, de especialistas em controles internos, capazes de formatar mecanismos de governança para garantir a transparência”, diz Ana Paula Ramos, gerente da divisão de finanças da consultoria Michael Page, especializada em recrutamento de média gerência.
A demanda é tanta que produz situações impensadas há poucos anos. “Os profissionais passaram a receber dois ou três telefonemas semanais com ofertas de empregos e aqueles com dois ou três anos de experiência passaram a ser considerados veteranos, verdadeiros dinossauros em RI”, conta Sílvia Emanoele Sewaybricker, gerente de RI da Positivo Informática.
De fato, a mais recente versão, divulgada em 2007, da Pesquisa sobre o Profissional de RI, promovida pelo IBRI em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), traz dados reveladores sobre a evolução dos salários nessa área. Entre os 110 profissionais de nível gerencial entrevistados, 49% deles recebiam salários acima de R$ 12 mil mensais no segundo semestre de 2006, quando o levantamento foi feito. Para se ter uma idéia, em 2003 esse mesmo padrão salarial só era alcançado por 24% dos profissionais. A pesquisa mostrou também que houve acentuado declínio na média de idade desses profissionais. Entre 2003 e 2006, a parcela situada na faixa etária de até 29 anos aumentou de 8% para 25%, enquanto a faixa acima de 45 anos caiu de 41% para 27%. Um sinal, inclusive, de que os profissionais mais experientes migraram para níveis mais elevados na hierarquia empresarial, como diretorias de relacionamento com o mercado, ou para outros segmentos que pagam até melhor, como as instituições financeiras ou de gestão de fundos. Othamar Gama Filho, presidente da operação brasileira da People Keys, empresa internacional de headhunting, conta que na área financeira já há profissionais no Brasil ganhando até 30% mais do que em Wall Street. “Não é incomum que um gestor de fundos no Brasil ganhe entre R$ 30 mil e R$ 40 mil por mês, em média”, comenta.
É claro que a rápida movimentação do mercado também traz problemas. O principal é a falta de tempo para a capacitação dos profissionais. “Eles são obrigados a descer do ônibus andando e têm de aprender enquanto fazem, sem tempo para um longo aprendizado”, preocupa-se Luís Fernando Moran Oliveira, gerente de RI do grupo catarinense WEG, e diretor de comunicação do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI). O diretor da Michael Page, Roberto Picino, sofreu os efeitos da falta de talentos para dar conta da explosão da demanda. “Na área de RI, por exemplo, tivemos muitos problemas com profissionais recém-formados que eram contratados já em posição sênior. Pessoas com 28 ou 29 anos de idade passaram a receber salários de até R$ 18 mil mensais, porque a procura era altíssima.”
Os mais procurados
Elo fundamental com os investidores e analistas, os profissionais de RI estão entre os que tiveram a função – e os salários – bastante valorizados. “Até 2006, trabalhávamos com uma demanda semestral por dez profissionais. Em 2007, essa demanda já havia saltado para cerca de 40 profissionais requisitados por empresas ou instituições financeiras”, conta Ana Paula. Ricardo Rosanova Garcia, gerente de RI do Paraná Banco e também responsável pela Comissão de Novos Associados do IBRI, acompanha de perto o boom da profissão de RI – uma das grandes beneficiárias da expansão da bolsa e da multiplicação dos IPOs. Garcia lembra que há dez anos, em 1998, quando começou a trabalhar no Itaú, o banco ainda não tinha sequer um departamento de RI. Hoje, a companhia é considerada uma das principais referências brasileiras no campo de Relação com Investidores.
O grande número de aberturas de capital é, sem dúvida, o principal fator que fez aumentar a procura por profissionais de RI. De acordo com Geraldo Soares, presidente executivo do IBRI e gerente de RI da Itaú Holding Financeira, a área de RI tem a função de preparar a estratégia de comunicação, promover o alinhamento das práticas da companhia com a legislação e eliminar eventuais ruídos na maneira como o mercado interpreta os movimentos da empresa. “E a demanda tende a crescer à medida que as companhias percebem que é um erro ir para um IPO sem uma equipe de RI já estruturada”, diz Soares. Nesse cenário, desponta toda uma cadeia de aperfeiçoamento das práticas das empresas que vincula profissionalização, controles internos e governança corporativa. “Nas companhias abertas, aqueles profissionais da área financeira, acostumados a dissecar balanços e indicadores, precisam trabalhar junto com outras pessoas, para entender o quadro geral da companhia e comunicar isso ao mercado de forma adequada”, comenta Ana Paula.



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